Mapa

Se um dia você ouvir
alguém perguntar por mim,
não diga nada
pois
conhecer é entender
quando se trata de alguma
palavra.

Tu sabes,
(sim, tu sabes)
que ainda vago de coração em coração
e que estou mesmo sem estar.

Dispense as missivas,
as lanternas,
as vaias,
porque é no sempre que eu me encaixo
e é lá onde permaneço
eternamente
(c)alado.

Gente

Uma pessoa a escrever algo
(na noite escura).
Uma pessoa a desejar algo
(no dia doze do seis).
Uma pessoa a amar algo
(no pé-do-ouvido de alguém).

Juntas,
formam uma cor clara
que logo se vê
insurgir sem pudor:

Por aqui, se diz "constelação",
a guiar qualquer navio
de qualquer bandeira
em qualquer região.

Por lá, vivem
sem sequer suspeitar
da lógica etérea
das coisas desta vida.

Como Esquecer

Como esquecer
se tudo
tudo
é atemporal?
Se resiste
insiste
existe
enquanto somos nós?

Como esquecer
se já floresceu
por já ter chovido?
E se viver é
realmente
cíclico,
como esquecer?

Por que esquecer se,
no ermo passado,
nos construímos
eternos?

Onde esquecer
se este mundo
ainda
é parte de nós?

O que hoje passa despercebido
(entre vielas e sentimentos)
outras retinas fadigadas
não esquecerão.

Tantos

Me sinto

(
nímio mundo iluminado,
me dá gosto no cheiro
me dá imagem no som
me dá vazio no excesso
e cegueira na luz
sem jamais chegar a mim:
lacuna entre braços
existência entre pretensões.
Hoje não há redenção
Hoje o segredo da vida será
acreditar
que há, ainda, um segredo na vida.
)

só.

Dezoito

Eu vejo a minha juventude através de uma janela
opaca.
São tempos onde significados prevalecem sobre as ações: no terceiro milênio, o conforto é um axioma e, por favor, mais um copo.
No terceiro mundo, o conforto é um axioma e é a juventude quem ri por esquecer por não saber por se sentir acima de todas as verdades possíveis.

Não me comove/eu não comovo

Na síntese, na tese, na Depressão todo homem é só.
O covarde é quem chora ou o covarde é quem foge? Repensar o século XXI dentro de um apartamento: a ausência de crítica é falta de entendimento: a ausência de auto-crítica é mero conformismo.
A juventude como bloco sólido-uniforme à deriva na maré, sendo que eu sou, sim, jovem, como também sou parte de intransferível de mim.

Tristeza é tempo osioso, eu li no jornal.
Tristeza é filha do impossível viver-agir só.

Eu não me comovo/a humanidade não me comove.

Mas, eu digo sim às pessoas: e digo por ser o único lugar para estar vivo.
E, no entanto, no antes-durante-depois
a juventude me vê através de uma janela
translúcida. 

Pergunto

Por que, na vida, tendemos à obscuridade?

E se, no meio do redemoinho,
são olhos obcecados que assistem
(muito mais frios do que altivos)
às velhas engrenagens
da mais nova máquina do mundo?

E se este rodamoinho nada mais significa
e você se vê
sozinho
reduzido às formas primitivas do seu quarto
e da sua alma?

Sei que há muitos mundos em um homem,
mas não sei se há, ainda, algum homem neste mundo.

Poema de Probabilidades

E se, um dia, eu pensar que posso guiar meus próprios passos,
E se, um dia, eu recusar presentes para aceitar futuros,
E se, um dia, eu precisar de amor sem sequer saber amar
Ou se, uma noite, eu jurar ubiquidades à luz de um castiçal,

Meu amor, tenha a certeza de que está tudo em seu lugar.